Elvense nascido a 28 de Setembro de 1950.

Professor na Escola Secundária D. Sancho II. Muito interessado na história e património de Elvas e, consequentemente, muito activo na vida cultural da sua cidade. É associado da AIAR.

Era uma vez...

E aquele monte começa a ter uma história para contar lá no longínquo ano de 1226, ano em que D. Sancho II de Portugal se encarregou de conquistar Elvas aos mouros.

Com o imberbe rei de dezoito anos de idade instalado com o seu estado-maior no monte onde hoje se situa o Forte da Santa Luzia e de onde assistiu à refrega, era acompanhado de um frade de seu nome Estevão Mendes. O frade Domínico vinha para cumprir os preceitos das regras da sua Ordem. Tendo como missão evangelizar as populações e dar assistência religiosa aos militares que aqui ficaram, resolveu escolher para se instalar “as fragosas penedias e horríveis selvas” de uma montanha próxima do povoado.

No alto do monte construiu a sua residência com as suas próprias mãos e daí vinha todos os dias até à fortaleza cumprir as suas obrigações apostólicas.

Entre os dois montes havia um vale luxuriante que era atravessado por um ribeiro. Por vezes o seu caudal era tamanho que obrigava o frade a faltar ao cumprimento das suas obrigações.

O povo de Elvas sentindo a sua falta, juntou-se e construiu uma ponte que ainda hoje é conhecida pela Ponte dos Frades.

Poder-se-á estranhar o facto do nome se referir a “frades” e não a “frade”, mas acontece que com o aumento progressivo da população, a Estevão Mendes se veio juntar outro frade de seu nome D. Álvaro. E assim nasce o primitivo convento dominicano no alto do monte.

A Senhora da Graça

Com a oferta de terrenos mais próximos da povoação, os frades que viviam no monte deitaram mãos à obra e construíram novo convento, ficando a sua antiga residência ao abandono.

Cerca de século e meio depois, Estevão Vaz da Gama casou em Elvas com Catarina Mendes, tendo esta ficado viúva somente com dezoito anos de idade e com um filho. Senhora de boas famílias e muito piedosa sofria com o abandono da casa dominicana no monte de modo que pensou em restaura-la. Assim o fez acrescentando uma ermida com “alojamentos bastantes, cisterna e outras oficinas de bons materiais” e aí colocou uma imagem de Nossa Senhora “que a intitulou da Graça”

E assim nasce pela primeira vez o nome de Monte de Nossa Senhora da Graça.

Uma referência importante e curiosa: Catarina Mendes teve um único filho de seu nome Vasco da Gama (Alcaide-mor de Sines) que, por sua vez, teve também um filho com nome igual ao de seu avô (Estevão da Gama, Cavaleiro da Ordem de Santiago). Este último foi pai do navegador (de nome igual ao de seu avô) Vasco da Gama, 1º Conde da Vidigueira e 2º Vice-rei da Índia.

O desejado e o Forte invisível

Dizia o Conde de Lippe que “que a defesa de Portugal se apercebia a grande pressa, quando as baionetas inimigas já lhe eram apontadas ao coração

Foi num estado de completo caos que o exército português se encontrava quando Guilherme de Schaumburg Lippe veio para Portugal por conselho de Jorge II de Inglaterra ao Marquês de Pombal. O conde é imediatamente elevado à categoria de Marechal-General e toma o comando de todo o exército.

Mas em primeiro lugar há que o organizar, disciplinar e até fardá-lo. A sua tarefa seguinte era organizar a defesa do país e depressa se apercebe das fragilidades do corredor entre Madrid e Lisboa. Era necessário travar os castelhanos logo na fronteira.

Sendo Elvas já então uma praça-forte, continuava a ter as vulnerabilidades evidenciadas cerca de cem anos antes e o Monte de Nossa Senhora da Graça era uma delas. Era urgente fazer algo. É neste contexto que projecta para o referido monte um forte que começará a ser construído em 1763. É em Julho desse ano que nasce a Jóia da arquitectura militar e onde a arte de fortificar se esgotou completamente.

É chamado para a sua construção o engenheiro francês Etienne que esteve ao comando das obras somente um ano. É então escolhido o homem que levaria até ao fim tamanha obra. Era também francês e chamava-se Guilherme Luís António de Valleré.

Em Dezembro desse mesmo ano a obra recebe pela primeira vez a visita dos soberanos portugueses que voltariam em Setembro de 1759 a visitá-la. D. José I ficou impressionado com a grandeza do forte. As obras deram-se por concluídas em 1793, ou seja trinta anos após o seu começo.

Os ocupantes improváveis

Não foram necessários muitos anos para que o Forte da Graça fosse posto à prova. Aconteceu em 1801 perante a recusa de Portugal se aliar a Napoleão e nos afastarmos da Inglaterra.

Oito anos volvidos, surgia a primeira oportunidade de pôr à prova tão importante obra de arquitectura militar.

As exigências de Napoleão, entretanto, continuaram e, na sequência do Tratado de Fointlableau, a invasão do território nacional por tropas franco-espanholas, concretiza-se.

Assim, e reconhecida a inutilidade de um banho de sangue em 1 de Dezembro de 1807, Elvas e os seus fortes rendem-se sem dar luta às tropas espanholas. O mesmo aconteceu em todo o país que foi invadido pelas tropas comandadas por Junot. Assim que estas começaram a cometer todo o tipo de abusos, revoltaram-se. Elvas não foi excepção, pelo que, aos primeiros sinais de revolta, o coronel francês comandante da Praça de Elvas, mandou transferir para o Forte da Graça muito armamento. Ele próprio, que se havia instalado no Paço do Bispo, passou a dormir com frequência no Forte.

Depois de muitos episódios, depois de as tropas inglesas terem chegado a Portugal e dos espanhóis terem mudado de “campo”, era altura de expulsar os franceses de Junot.

E é precisamente um contingente espanhol que chega a Elvas com a missão de expulsar os franceses que põe cerco ao Forte da Graça onde se tinha refugiado toda a guarnição gaulesa em Elvas. E aí resistiram até ao aparecimento de tropas inglesas.

De notar que durante as seguintes invasões francesas, Elvas não voltou a ser ocupada.

Prisão e prisioneiros

Neste caso pode-se afirmar que os primeiros presos do Forte da Graça foram os próprios trabalhadores que tinham por mau hábito roubar pólvora que servia para abrir as minas e vendê-las aos inimigos espanhóis. Até um oficial inglês foi apanhado a fazer o mesmo. Isto significa que antes de o ser já o era, ou seja, antes de ser uma prisão declaradamente já o tinha sido. Mas não foram necessários muitos anos para que o Forte se transformasse numa prisão a sério.

Durante o agitado período das lutas liberais o Forte da Graça serviu preferencialmente de prisão do Estado e entre as pessoas ilustres que visitaram as suas casamatas conta-se o Conde de Subserra, Manuel Inácio Martins Pamplona Corte Real, que aqui acabou por falecer. Também por motivos políticos aqui esteve preso o general João José Sinel de Cordes e logo de seguida, talvez o prisioneiro mais famoso que aqui passou, Afonso Augusto da Costa que foi chefe do governo por três vezes.

O número de prisioneiros que aqui passaram é uma longa lista de civis e militares, dos mais simples aos mais importantes.

O renascer

Depois de muitos anos de uma lenta agonia, finalmente no princípio de 2015 começa o seu restauro que acaba um ano depois.

Embora mantendo a traça original, foram mantidas também algumas alterações feitas ao longo da sua vida, sendo as mais importantes as pinturas murais que ali foram produzidas, muitas em camadas sucessivas e que serão estudadas posteriormente. Das originais poucas restam à vista, sabendo-se que muitas estão por baixo de outras que foram sendo feitas.

Para terminar só se pode dizer uma coisa: “A jóia da Coroa voltou a brilhar”.

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